segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Intertextualidade

Na intertextualidade, sempre temos um texto original que serve de ponto de partida para a elaboração de outros textos, ou seja, o texto a ser elaborado irá 'dialogar' com o texto já existente. Nessa perspectiva, esse texto pode, apenas, retomar o outro, ou também, pode pretender a paródia: uma imitação cômica para repensar o tema, sob uma nova visão.
Para exemplificar, selecionei dois poemas, um de Drummond, que 'dialoga' com textos bíblicos, e outro de Adélia Prado, que 'dialoga' com o poema de Drummond, mas apresenta um novo olhar sobre o tema, instaurando o discurso feminino:

Poema de Sete Faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás das mulheres.

A tarde talvez fosse azul,
não houve tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.
(Carlos Drummond de Andrade)


Com Licença Poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.

Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto, escrevo. Cumpra a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
(dor não é amargura).

Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
(Adélia Prado)

* O anjo de Drummond é "torto", desajeitado, ou seja, uma pessoa desencontrada na vida em relação à forma de se viver; já o de Adélia é "esbelto", forte, representando a força da mulher para vencer as barreiras. Adélia defende a idéia de que a mulher ainda está buscando sua afirmação e que começa a falar por si mesma, mas que ainda parece pedir licença para viver no mundo.

Um comentário:

Anônimo disse...

Que coisa mais linda!
Parece com você.
Bjs...